Ary Albuquerque: O Homem, o Tempo e a Palavra
Aos 91 anos, o poeta cearense reflete sobre sua jornada literária, ambiental e humana, reafirmando que viver é uma arte em constante construção.
Com 91 anos de vida, Ary Albuquerque carrega em sua trajetória um legado que transborda literatura, sensibilidade e múltiplas realizações. Nascido em Fortaleza em 5 de março de 1934, é bacharel em Administração de Empresas e Ciências Contábeis, além de ter se aprofundado em áreas como Psicologia Aplicada ao Trabalho e Mercado de Capitais. Ambientalista atuante, foi pioneiro na reciclagem de plásticos no Brasil, unindo sua atuação industrial ao compromisso com o meio ambiente.
Mas é na literatura que Ary encontra sua essência mais vibrante. Autor de mais de vinte livros, entre poesias, contos e romances, é reconhecido por sua escrita que celebra a beleza da vida e os valores humanos. Sua obra mais admirada, O Amanhã Aconteceu, é reflexo de sua sensibilidade e olhar poético sobre o mundo.
Com uma vida dedicada à arte, ao pensamento e à transformação, Ary nos convida, através de suas palavras, a enxergar a existência como um processo contínuo de realização – e inspiração.
Conheça um pouco mais sobre Ary Albuquerque.
Com 91 anos de vida, como o senhor enxerga sua trajetória e legado na literatura?
Há uma frase do poeta José Marti que se tornou popular, em relação a realização do homem: ” Plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho”.
Essas três coisas eu já realizei de sobra. Plantei cem mil cajueiros, escrevi mais de vinte livros e tenho 3 filhos. Mas, não me considero um homem realizado, porque para mim, O HOMEM É UM SER EM REALIZAÇÃO, SÓ SE REALIZA COM A MORTE.
EU, aos 91 anos de idade, procurei escrever, dentro da minha trajetória literária, algo que trouxesse ao leitor uma percepção da vida como ela é, mas, sempre com a preocupação de cantar suas belezas e enaltecer as virtudes humanas. Tenho a certeza de que, até aqui, deixei um legado positivo. Para o poeta é mais fácil incursionar no romance e no conto, pois, esse possui o aprendizado da síntese.
O que o motivou para escrever poesia e se aventurar no romance e no conto? Há alguma obra que considere mais especial?
Considero meu romance O Amanhã Aconteceu minha obra mais importante e a que tenho maior admiração. Levei cinco anos para concluí-la e ela reflete emoção, paixão, amor, guerra, comportamentos humanos, ao mesmo tempo e uma estória de amor entre dois adolescentes.
Além da escrita, o senhor tem uma forte atuação no ambientalismo e na indústria. Como essas áreas se conectam na sua vida?
A vida nos proporciona sermos multifacetários, sem perdemos a nossa identidade.
Comecei na indústria de plásticos e, na época o Brasil produzia pouco material plástico virgem. Fui obrigado a entrar na reciclagem de plástico para abastecer minha indústria. Aí me apaixonei pela reciclagem e, por consequência, pela preservação do meio ambiente. Quanto ser industrial é uma vocação desde cedo.
O senhor acompanhou muitas mudanças no mercado literário ao longo das décadas. Como vê a evolução da literatura e o impacto das novas tecnologias?
Quando eu era adolescente a edição de livros acontecia somente no eixo Rio-São Paulo, raramente, nas capitais dos outros Estados. Eram poucos os livros editados. A percentagem de analfabetos impedia que o mercado de livros prosperasse. Com a evolução do País e diminuição do analfabetismo o livro teve uma ascensão rápida e se sedimentou uma elite pensante que deu voz a milhões de pessoas.
As várias formas de literaturas tiveram seus adeptos e surgiram dezenas de escritores. Com o surgimento da Internet, tem-se a impressão de que a literatura acabou por conta da diminuição de livros físicos, mas, não. Veja-se a quantidade de livros eletrônicos. Agora, a qualidade de nossa literatura piorou em função da proliferação do sistema de divulgação. Não há seletividade.
Se você pudesse deixar um conselho para os novos escritores e poetas, o que seria?
Leiam os bons autores do passado e procure ler, seletivamente, os autores do presente. Leiam, exaustivamente, pois, a boa leitura, ajuda, em muito, a escrever bem.
Após tantos anos dedicados à arte e à escrita, ainda há algum sonho ou projeto que gostaria de realizar?
Claro. Enquanto, houver vida há sonhos.
Ainda, quero escrever uma peça de teatro (um monólogo) e ver alguns de meus livros transformados em filmes, além de editar 17 livros infanto-juvenis estão digitados.
Qual é a lembrança mais marcante de sua infância em Fortaleza?
. Quando tomei contato pela primeira vez com a casa de minha tia Dagmar, casada com um dos homens mais ricos do Ceará, para época. O luxo é o conforto da chácara surpreenderam o menino de seis anos, deixando marcas indeléveis que perduram até hoje.
Se você pudesse reviver um momento especial da sua vida, qual escolheria e por quê?
No dia em que conheci Inez, minha esposa, porque estou casado há cinquenta e cinco anos.
O que ainda lhe dá emoção e faz seus olhos brilharem todos os dias? Despertar e olhar o sol. Sentir que estou vivo, pronto para enfrentar o dia com seus desafios.
Depois de 91 anos de experiências, qual é o maior aprendizado que a vida lhe trouxe? Que não sei nada e tenho que aprender todo dia.